[Clave d’Alma – Casos Clínicos]: Caso Leonardo (Áudio+Texto)

Clave d'Alma

Oiça o Caso do Leonardo.

Foi a mãe que marcou a consulta. Quando a campainha tocou e fui à porta, um rapaz de calções, ténis, t-shirt e boné para trás, escondia-se. Não consegui precisar-lhe a idade mas aparentava ter 15, 16 anos. Perguntei quem ia entrar. A mãe resumiu, apressadamente: “É assim, a consulta é para o meu filho, mas como ele não vai saber explicar bem o que se passa, acho que é melhor eu entrar”! Olhei para ela e para ele. Assim que soube a sua idade decidi que entraria sozinho.

Bem, ainda me lembro, como se fosse hoje, o dia em que fui pela primeira vez às consultas da Dra. Carla, acompanhado pela minha mãe, porque eu próprio não conseguia exprimir, realmente, como me sentia. Era uma pessoa com bastantes complexos comigo e com o meu corpo, principalmente com a acne, que achava que era a culpada de tudo. Mas, também com a minha falta de confiança na maior parte das coisas que fazia. E pouco acreditava que iam melhorar. Eu próprio sei que, apesar dos meus 27 anos, demonstrava pouca maturidade, era muito ansioso, nervoso e irrequieto”.

Leonardo entrou e sentou-se. De olhos postos no chão. E assim se manteve durante alguns minutos. Tremia. Tinha um tique (agarrar na breguilha das calças e puxá-la para baixo, como se sentisse desconforto). Depois, timidamente, começou a falar da sua insegurança, da acne, e da dificuldade em dizer “não” aos amigos. Trabalhava numa fábrica, era poupado, tinha objectivos de vida, mas achava-se incapaz de realizá-los. As relações amorosas tinham sido complicadas e de curta duração. Mal se percebia o que dizia. Falava baixo e gaguejava ligeiramente. O aparelho nos dentes, também, não ajudava à dicção. A relação com o pai era saudável, mas com a mãe era de uma dependência emocional extrema.

Ao longo das sessões, pude constatar a sua baixa auto-estima, imaturidade emocional e ansiedade generalizada. Investimos na autonomia, na independência, na auto-estima e na auto-confiança. Foram trabalhadas novas e mais adaptativas estratégias de resolução de problemas, para utilizar em situações sentidas como ansiógenas. Conseguiu focar-se nos seus objectivos (já existentes) e passar à acção. A nível emocional, passou a recorrer mais à expressão do que à supressão emocional, procurando outras formas de lidar com as suas emoções e pensamentos, o que possibilitou a alteração dos comportamentos.

E a verdade é que a partir daí as coisas deram um “Boom” enorme. Com mais confiança em mim, procurei a sorte, mais pessoas começaram a aproximar-se, a reparar que eu estava diferente, mais “solto”. Mas, isso nem sempre é bom, porque há boas e más pessoas, mas esse também foi uns dos pontos nos quais as consultas me ajudaram. Tornei-me uma pessoa ambiciosa na vida e lutadora, para poder realizar todos os meus projectos e sonhos. Hoje consigo controlar melhor os meus sentimentos, saber dizer “não” directamente a certas coisas, que antigamente tinha que inventar uma desculpa ou um motivo”.

No emprego, devido à sua nova atitude, surgiram convites para Leonardo trabalhar em filiais no estrangeiro, experiências que o ajudaram a crescer. “Nem tudo foi bom nessas viagens mas quando surgiram problemas soube sempre resolvê-los com a calma que não teria noutras alturas. Até no meu sentido de humor notei grandes diferenças, e as pessoas que me rodeiam também mo dizem. Descobri um dom que tinha e não sabia: o de pôr um sorriso na cara das pessoas. Aprendi a gostar mais de mim, porque só assim consigo que as pessoas também gostem. Haverá certamente muitas coisas mais nas quais eu mudei, mas talvez só as pessoas que estão à minha volta o possam dizer.”

O facto de Leonardo ter tomado consciência que a maioria dos ganhos terapêuticos aconteceu desde que interiorizou e começou a aplicar as estratégias sugeridas em sessão, por si só, fez desenvolver a sua auto-estima e a sua auto-confiança.

Hoje, o seu vestuário é cuidado, como sempre tinha sido, mas condizente com a idade cronológica. Juntou dinheiro. Procura casa para ir viver sozinho. Gostava de constituir família. Do “rapazola” que entrou no consultório ficaram, apenas, ligeiras marcas da acne, a que deixou de atribuir a causalidade dos sucessos ou insucessos que vai obtendo na vida. Venceu a gaguez que era, essencialmente, decorrente dos sintomas psicológicos que apresentava, e tirou o aparelho dos dentes, o que possibilitou melhorias na dicção e na imagem que tem de si próprio. Em 14 sessões (ao longo de 1 ano), Leonardo cresceu, emocionalmente, 12 anos (dos 16 aos 28). “Tenho que agradecer às Dras.[1], mas muito a mim que tive a coragem de entrar no consultório, ouvir atentamente tudo aquilo que me diziam e dar um novo rumo à minha vida, um novo “eu” à minha vida”.

Carla Andrino

[1] Quando Leonardo diz “Dras” refere-se à Dr.ª Carla Andrino, psicóloga responsável pelo processo e à Dr.ª Patrícia Januário que foi co-terapeuta, no âmbito do Estágio Profissional da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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